Janaina Rico

Crônica 55 - Solidão

O escritor, por sua natureza, é solitário. É uma arte que se produz invariavelmente sozinho. É praticamente impossível escrever com outras pessoas olhando para você. No momento que cria, o escritor precisa se isolar.

E o leitor, também pela própria natureza, é sozinho. Quando lemos, buscamos um lugar tranquilo, e de preferência sem muita gente, para que possamos nos concentrar. Até que existem alguns grupos de leitura e pessoas que lêem em duplas ou em trios, mas na maioria das vezes, ler é algo que se faz sozinho.

Como escritora e leitora que sou, me sinto completamente só. E a pior solidão que existe é aquela que a gente sente estando acompanhada. É quando você pode estar no meio de milhões de pessoas e mesmo assim percebe que não está com ninguém.

Ser só e não ser amado são coisas completamente diferentes. Conheço gente que nunca está se sentindo solitário, mas não tem o amor verdadeiro de ninguém. Eu sou uma pessoa amada, sem a menor sombra de dúvidas, mas sou só. E sempre fui. Desde criança.

E o mais dolorido é saber que isso partiu de mim. Fui em quem tomei a decisão de me isolar do mundo, de não ter telefone celular, de não atender o telefone da minha casa, de não responder e-mails recebidos, de não ir a todas as festas que me chamavam. Fui aos poucos me isolando, e aí... Agora está difícil para voltar.

Mas a gente precisa levar uns sustos da vida para ver o que está acontecendo. Estou envolvida com tratamentos de saúde que eu não gostaria, e isso me fez abrir os olhos. Eu queria em muitas das vezes, quando vou fazer exames ou vou a consultas, estar acompanhada, com alguém me dando a mão e dizendo que vai dar tudo certo no final das contas. Só que, por opção única e exclusiva minha, eu estou sem ninguém.

Não posso reclamar das minhas próprias escolhas. A vida que possuo fui eu quem construí. Passei da idade de culpar os outros pelos meus fracassos. Mas que é muito ruim olhar em volta e saber que estou só, isso é.

* Escrito em 2009

 

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