Trinta e uns

TPL_IN

Estou muito zangada com a minha cabeleireira. Na verdade, nunca mais vou àquele salão de beleza. Mulher má, muito má. Ela teve a audácia de dizer que estou com dois fios de cabelo branco na cabeça.

É, não tem jeito. O tempo passa pra todo mundo. Os quase quarenta estão aí, e os 20 e poucos estão cada vez mais lá. Rugas aparecendo, pele ficando flácida, e inevitáveis cabelos brancos surgindo.

No entanto, com esses desagrados, percebo outras coisas chegando também. Paciência é uma delas. Já aprendi que as coisas não são para ontem, e isso é muito difícil. Não tenho mais planos de mudar o mundo, e não tenho mais a ilusão de que a Globo irá me descobrir e eu serei considerada uma das mulheres mais bonitas do Brasil. Mas tenho a consciência de que a vida sempre dá certo, e que as raivas e mágoas passam, basta a gente ter vontade.

Não ter mais a vitalidade dos 20 anos não traz apenas pontos negativos. Junto com os trintinha vem algo chamado humildade. Com muita dor venho aprendendo humildemente a pedir desculpas e a reconhecer meus erros. Para fazer isso, só com muita maturidade. Mas sou obrigada a confessar que tem muita gente com quase 100 que não admite seus erros. Estou em larga vantagem.

Não consigo mais passar uma noite inteira bebendo, e acordar às 6 horas da manhã para enfrentar o batente, como já fiz muitas vezes, e talvez isso tenha feito surgirem esses cabelos brancos. Mas, consigo decidir qual programa será bom para me deixar acordada uma noite inteira, sem perder tempo com coisas inúteis. Sei olhar uma situação e antecipar se dará certo ou não.

Descobri, com a minha cabeleireira, que a beleza que tive aos 20 não vou ter nunca mais. Aquela pele vistosa e o brilho no olhar de quem acredita que tem o mundo inteiro a desvendar passa, e não volta nunca mais. Mas posso olhar para trás e dizer: 30 e alguns bem vividos, e que venham mais 30, mais 30 e mais 30.

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