Bruxelas, 17 de junho de 2016

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Chegamos em Bruxelas, na Bélgica, no final da tarde. A princípio a cidade me pareceu pouco acolhedora. Muitos prédios, muitos carros e muita gente emburrada caminhando nas ruas.

Não foi difícil achar o apartamento que alugamos, mas ficamos na dúvida na hora de estacionar. Tinham algumas vagas disponíveis e não vimos nenhum parquímetro. Colocamos em uma vaga relativamente perto do apartamento. Depois descobrimos que tínhamos que colocar dois euros para poder ficar por um período de quatro horas.

Um belga nos recebeu e falou um inglês carregado no sotaque francês. Se teve uma coisa nessa viagem que eu aprendi foi a entender o inglês falado com vários sotaques diferentes. As minhas aulinhas do Fisk e as horas vendo filmes americanos sem legendas não são nada perto da riqueza de ter que conversar com gente do mundo todo, sem o inglês ser a língua nativa deles e nem a minha. Quando dizem que viagem é o único meio de a gente gastar dinheiro e ficar mais rico, acho que estão completamente certos.

O apartamento é uma gracinha. Todo decoradinho com carinho, cozinha completa, dois quartos, uma salinha fofa. Ah, tem uma coisa que venho achando muito interessante em todos os lugares que a gente se hospedou na Europa. O vaso sanitário e o chuveiro ficam em cômodos diferentes. Uma portinha para cada um e isso é ótimo! Assim, enquanto um toma banho, o outro pode usar o banheiro. Prático e eficiente.

Depois de colocarmos nossas malas e pagarmos a hospedagem, eu e Samuel descemos para comprar comida. Com a cozinha completa o melhor a fazer era cozinhar uma comidinha de verdade. Não vimos um supermercado grande, mas sim vários mercadinhos pequenos. Nas calçadas eles colocam expositores com frutas, legumes e verduras. E do lado de dentro, pequenas lojinhas com mantimentos, enlatados, produtos de limpeza… Dá para notar que os belgas não fazem compras de mês, e sim compras diárias.

Percebemos logo que era um bairro muçulmano pelo enorme número de mulheres de véu. Mais uma vez fiquei impressionada. Ou o booking só está indicando hospedarias em bairros muçulmanos ou eles estão realmente em maior número na Europa do que eu imaginava. E algo nem um pouco legal aconteceu. Eu estava vestindo um short e um casaco, além dos meus cabelos esvoaçantes e cacheados chamarem atenção, junto com meus enormes brincos de argola e minha boca com um batom bem vermelho. Vários homens me olhavam de maneira reprovadora, uns até balançavam a cabeça negativamente para mim. E não era nada discreto. Eles olhavam mesmo, reprovavam mesmo. No começo eu me senti constrangida de verdade. Mas depois de alguns minutos caminhando, pensei: estou em um país livre. Se eu tenho que aceitar as mulheres deles usando o véu, eles têm que aceitar as minhas pernas de fora.

No mercado, o rapaz do balcão nem falou comigo. Por mais que fosse eu quem perguntava os preços, pedia o que queria comprar e, por fim, eu que tirei o dinheiro do bolso para pagar as compras, no entanto, ele só se dirigiu ao meu marido. Por exemplo, eu perguntei para ele quanto custava o tomate. Ele olhou para o Samuel e deu a resposta. Uma tristeza muito grande tomou conta de mim, por ser tratada como invisível. 

Obviamente eles não vendiam bebidas alcoólicas. Então saímos caminhando atrás de um lugar onde vendesse. E mais olhares reprovadores apareceram para mim. Estava me dando vontade de chorar. Porém, assim que saímos do centro do bairro e fomos para uma rua movimentada que tinha vários bares e restaurantes eu me senti aliviada, pois voltei a ser apenas uma mulher livre que pode se vestir da maneira como achar melhor.

Compramos vinho e cerveja. Voltamos para casa e eu preparei uma peixada deliciosa, com brócolis, mandioquinha, tomate, grão de bico, cenoura e batata. Um arrozinho fresco acompanhou tudo. E depois de bem alimentados dormirmos profundamente, aproveitando o frio de aproximadamente 10 graus que fez na madrugada.

Acordamos tarde e passamos a manhã curtindo uma preguicinha. De tarde saímos para dar uma caminhada. O bairro boêmio de Bruxelas é lindo! Paramos em uma espécie de pub e tomamos cerveja belga e ficamos escutando várias músicas boas. Eu engatei uma conversa em francês com a moça do balcão e ela me ensinou mais algumas palavras que eu não conhecia. Se tem uma coisa que eu amo é aprender novas línguas! Samuel fica rindo da minha cara de pau, pois eu já digo logo para a pessoa que eu quero aprender e que se eu falar errado pode me corrigir. Como ele é muito tímido, acaba ficando caladão do meu lado, rindo das besteiras que eu digo.

Do pub saímos para dar uma caminhada. Passamos na estátua Manneken-Pis, um menininho que fica fazendo xixi. Um monte de gente estava tirando foto, mas eu, honestamente, não achei muita graça. Também tinha um quadradão com várias construções antigas mas também não ganhou meu coração. Uma rua enorme vendia chocolates, eu aproveitei para experimentar muitos. Comprei alguns deliciosos.

Paramos ainda em um outro barzinho, mas estava muito frio e resolvemos tomar cerveja no apartamento. Quando eu já tinha bebido alguns copos a mais, fui para a varanda e falei em alto e bom som (em português, inglês e francês) que é muito bom ser uma mulher livre, que não cubro o meu corpo para agradar a seu ninguém, e que Deus não quer que homem nenhum mande em mim. Não tive plateia, mas teve um homem que passou olhando e rindo. Fiz a minha parte.

Infelizmente estou indo embora sem dizer que a Bélgica é bacana. Fui recriminada, não achei a cidade de Bruxelas muito bonita e não estou com a menor vontade de voltar. Mas, para que eu pudesse ter essa experiência e essa visão, precisei vir aqui. Então, valeu. 

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